terça-feira, 15 de junho de 2010

Azul pérola

Era setembro, Rafa e Tainã completariam um ano desde que se viram pela primeira vez. Tainã se mudara pra vila Giannabur com a família, por motivos de trabalho do pai. Instalaram-se num casarão secular na rua da cafeteria mais antiga da cidade, da qual a família Giocondo era proprietária há mais de três gerações.
Rafa Giocondo e Tainã Mieckal, apesar de vizinhos, sõ se conheceram uma semana após a mudança dos Mieckal, quando começaram as aulas de história da arte no centro cultural municipal, localizado numa praça circular representando o centro da vila. Com um mês de convivência, Rafa e Tainã aumentaram a frequência de seus encontros e passaram a se reunir na cafeteria dos Giocondo a fim de discutir o livro da vez. Após um semestre, começaram a visitar a casa da música semanalmente.
Naquela noite não haviam programado nada, mas, inexplicavelmente, ambos saíram aos respectivos portões e, como se partilhassem do mesmo pensamento, o bater dos portões compuseram um uníssono e , ao se virarem, surpresos mas ao mesmo tempo eufóricos, viram-se à uma proximidade que lhes permitia o tocar dos lábios com um mínimo movimento, se não lhes faltasse coragem, e podiam quase ouvir as batidas no peito abafando o silêncio dos sonhos. Começaram a passear pela cidade em busca de um lugar tranquilo onde pudessem ficar a sós. Como a vila era pequena e ambas as famílias eram conhecidas, qualquer lugar não era suficiente. Após algumas horas de andada, enfim cansados, encontraram uma grande grade denunciando a silhueta de um portão antigo. Notava-se ainda um vestígio de tinta azul entre as ferrugens e por trás daquela relíquia via-se um caminho gramado que levava à uma capela abandonada.
Já era tarde, passava das duas da matina quando resolveram explorar o novo refúgio. Tudo ali os encantava, nos murmúrios da noite, a lua iluminava um belo campo florido junto à cruzes e poucas fotos corroídas esquecidas próximas ao túmulo, fotos de dias felizes, retratos de lembranças alheias.
Ali, entre silenciados epitáfios, suspiros do vento acariciavam lágrimas de arrependimento e saudade enquanto um casal de jovens desvendavam nos mistérios de um cemitério o romantismos das vidas cansadas. Em uma rocha húmida, sentaram-se e dispuseram-se a falar sobre o passado futuro daquelas existências de areia desvanecidas em poeira. A desexistência daqueles corpos jazidos em terra, datas, nomes e dedicações traduziam informações inúteis, falsos triunfos de vidas fúteis. Histórias grandiosas despistavam o amor. Dentro dos corpos inocentes, hormônios e sinapses despertavam incertezas mescladas ao forte desejo.
A partir de então, um novo costume se adaptou à rotina. O tempo parecia ter-se esquecido de sua função a fim de se deliciar observando aquelas almas puras descobrindo-se amantes. Algumas vezes pegava carona na brisa e dava voltas e loopings no ar até chegar próximo e tentar alcançar os rostos de veludo. Diante dessa brincadeira, os astros se ocuparam do cargo, pois em algum momento não se via mais a luz prateada e uma pincelada rosa alaranjada, acima da grande colina, surgiu.
Da brisa fez-se ventania, anunciando a partida. E do carinho fez-se paixão, eternizando aquele momento num enlace, moldando suas mãos, uma na outra, encaixando-se como um quebra-cabeça e poupando mais duas vidas da existência vã.