Fazia um belo dia lá fora mas Amanda, acostumada a ver sua vida passar atrás de uma janela já não se abalava tanto ao ver sorrisos rolando no verde vivo do gramado. Do seu quarto, a altura lhe permitia uma paisagem privilegiada com vista pra masmorra, e esse era um dos seus consolos. As vezes observava o moita de espinhos e seu habitante, um esquilo que chegara ali aproximadamente na mesma época que a levaram pra lá, outras, sentada na cama, diante do vidro que a separava do resto do mundo, admirava as andanças pelos corredores. Haviam ali tantas vidas quanto mortes. Desfrutava-se em imaginar rotinas, eram como enigmas com as capas semi abertas, aguardando o momento da leitura. Uma mulher que passara rápido mais de uma vez por turno, tinha os cabelos sempre em um coque alto, mal preso, deixando alguns fios lhe escaparem caindo ao rosto frágil. Hoje, deduzia, ela chegaria tarde em casa, ainda preocupada com alguns laudos, poria na vitrola algo clássico e leve, no coração, o pesar insustentável. Enfiaria-se numa banheira espumada e tentaria lembrar se algo faria sentido. Afogaria-se nos sonhos esquecendo-se que não longe uma flor exalava seu frescor a espera de seu apreço.
Desde dezembro sua enfermidade a prendera em um quarto branco de hospital e a privara do contato com seus amigos. Familiares utilizavam da desculpa para diminuir a frequência das visitas mas os presentes vazios não acobertavam o verdadeiro desgosto da recente decepção. Amanda ainda não compreendia tudo aquilo, na verdade, a incredulidade fora pela reação exagerada de pessoas inesperadas. Tanta hipocrisia e desamor não poderia ser fato. Não deveria se iludir mas outra saída não havia. Já sozinha, seus atos perdiam a essência e de seu olhar esvaia-se o brilho.
Cessaram-se as visitas e, cansada, deitou-se na velha maca, olhou mais uma vez para o quarto vazio, assim como sua alma, e, como um soneto simples, em meio à confusão que se fazia próximo a seu corpo, o sorriso de Amanda se foi. Passou pela moita de espinhos, observou pela ultima vez o esquilinho (agora de perto) e caminhou na mesma direção, em busca de enfim, sua real liberdade.
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